
No estudo da sociologia e do urbanismo existem algumas constatações que são importantes e servem de referência para a tarefa de planejar uma cidade. O cidadão tem basicamente dois ambientes em que desenvolve a sua vida. Uma parte dela se dá no espaço público, comum a todos e a outra no espaço privado, do seu estrito domínio. A linha que separa o público do privado é muito tênue, em geral separados por linhas, muros, paredes ou barreiras. Na ótica do urbanismo, em geral, apenas a parte do espaço público é abordado de forma mais enfática, técnica e estruturantes deixando ao espaço privado apenas algumas regras de ocupação espacial.
O espaço público, por sua vez, apresenta uma dicotomia similar ao da vida privada ou pessoal. Um indivíduo normal tem necessidade de relações de comunicação ou interação com outros indivíduos e, outras vezes deseja o isolamento. Assim, o cidadão, no espaço público, exerce ou necessita de espaços de interação e comunicação como expressão das relações sociais e, por outro lado, deseja espaços para a tranqüilidade, o silencio, o relaxamento, o contato com a natureza que o conduz ao isolamento.
Quando uma cidade se torna muito compacta, densificada ou excessivamente multifuncional corre alguns riscos de cercear o cidadão destes desejos. O modelo, fruto de pressões especulativas ou de políticas mal interpretadas, pode determinar mudanças neste conceito. A tendência atual do urbanismo reavalia a dispersão da ocupação territorial urbana com propostas e estratégias novas voltadas a definir melhor as identidades de determinados sítios, oportunizando os pontos positivos destas situações fortalecendo as oportunidades das relações sociais em conjunto com a necessidade de isolamento. Por algum tempo as soluções para a ocupação urbana propunham o crescimento ocupacional em área mais ou menos centrais, com usos para atividades eminentemente terciárias, tendo como resultante uma forte migração interna na medida em que as atividades econômicas afujentam os residentes, destituindo estes lugares de suas identidades.
Se a cidade se produz e se sustenta de relações sócio-econômicas, se faz necessário entender melhor, no seu planejamento, como os negócios controlam o desenvolvimento territorial e impactam nas relações das pessoas entre si e com o meio em que vivem. Desta compreensão será mais fácil definir as proporções entre a edificação e o espaço público que resultem num equilíbrio para a qualidade de vida. É necessário regular ou corrigir a compactação ou a dispersão da ocupação urbana e, isto pressupõe muitas análises. Delas devem-se extrair as formulas que evitem os excessos negativos que podem gerar más disfunções ou o desvirtuamento da lógica do desenvolvimento sustentável.
Quais são as regras ou fórmulas para a correção das disfunções urbanas que devem ser tomadas ou ainda, onde estão os pontos de equilíbrio entre a cidade compacta e a cidade dispersa? No ambiente privado isto se reproduz entre a proporção de áreas íntimas e as áreas de lazer ou sociais. Nas cidades, esta proporção deve ser detectada segundo suas particularidades ambientais e características morfológicas adequadas ao espaço necessário para a cidade desenvolver suas atividades econômicas, às edificações e aqueles espaços ditos verdes e livres.
Observa-se em geral que a compactação do tecido urbano reflete em déficit de espaços verdes e livres, representados por aqueles que estão num raio não superior a 250 metros do local de moradia. Na cidade compacta os automóveis e as demandas por áreas de carga e descarga ocupam de 60 a 70% do espaço público, produzindo uma incrível dispersão de energia resultante do tráfego, poluição sonora e atmosférica, geração de acidentes e um resultado paisagístico sempre duvidoso. Percebe-se nestes lugares que o espaço urbano público passa por um profundo constrangimento produzido pelos usos e funções da compactação.
A especulação imobiliária, por sua vez, exerce grande responsabilidade nesta redução dos espaços de relação social e de relação com o meio ambiente. A tranqüilidade, o verde, os espaços públicos de sociabilidade dão lugar aos ambientes edificados, cada vez mais fortificados e cada vez artificiais, transbordando suas disfunções para o espaço residual que é público.
Se a cidade e quem nela vive deseja reconquistar seu equilíbrio e melhor relação de interação social x privacidade, deve se preocupar em produzir um modelo de reconquistar o equilíbrio dos espaços públicos e privados, num foco de ampliar o benefício social, econômico e ambiental. Deve prever a ampliação dos espaços de relações sociais, de relação com a natureza, com a tranqüilidade (segurança). Isto significa estabelecer um maior equilíbrio na relação do espaço comum com os espaços construídos e seus usos. As soluções recentes na vanguarda do urbanismo, preocupam-se com a imagem da cidade, especialmente no resgate e na definição das identidades e o modelo de cidade futura se fará, em parte, repensando os usos, qualificando as atividades econômicas para priorizar a qualificação da vida e do meio ambiente.