27
de
outubro
VERTICALIZAR, PARA QUEM?
Um fator que pouca gente percebe e que nos últimos anos toma conta de Joinville é a pressão pela verticalização das nossas construções em bairros tradicionais, especialmente para fins de moradia de médio e alto padrões, motivadas pelo grande apelo da qualidade ambiental e urbana que estes sítios sugerem. O propósito é usar este predicado como apelo de venda para novos empreendimentos imobiliários.
A qualidade destes locais foi conquistada ao longo de décadas, mantendo as áreas residenciais unifamiliares com o predominío de jardins arborizados e floridos (que nos conferiram o tíltulo de "Cidade das Flores") e de uma certa vida pacata, característica dos lugares bucólicos. Se permitidas as alterações propostas, iremos transformar estes locais num amontoado de construções, sintetizadas por prédios de apartamentos que eliminarão as qualidades dos bairros mais bucólicos.
A cada nova construção, áreas verdes serão suprimidas, edificações antigas serão demolidas, eliminar-se-ão os jardins, as árvores, a condição de insolação e a permeabilidade do solo. Após serem ocupados e descaracterizados da qualidade que hoje dispõe, os especuladores buscarão outro novo território, até que eles se acabem.
Sem a menor cerimônia, a memória e a ambiência dos bairros residenciais de Joinville vem sendo destruídas. A preservação deste equilíbrio muito sensível entre áreas construídas, áreas verdes, áreas de passeios com sombreamento e a tranquilidade peculiar nestes sitios, são absolutamente necessários em qualquer cidade do mundo.
O processo de ocupação indiscrimanda de áreas residenciais para atender a interesses imobiliários fazem, há muito, Joinville perder suas referências da memória da construção urbana formadora da nossa identidade. Rapidamente, a nossa memória vai sendo demolida por conta de novas construções, num modelo de reprodução volumétrica rudimentar, carente de soluções inovadoras e sustentáveis que apenas se diferenciam pelo revestimento externo, sem agregar valor, salvo aos que especulam. Já a questão ambiental é ainda mais preocupante, pois sem qualquer estudo que avalie os impactos deste modelo de ocupação sobre o terrítório urbano, não se o resultado, por exemplo, da mudança da dinâmica dos ventos que refrescam a cidade, da redução de insolação direta que é necessária para manter a vida.
O nosso modelo de ocupação urbana suprime grande parte da massa vegetal, que é praticamente toda privada, onde o poder público colabora com a supressão de árvores em vias urbanas. Adicionalmente, geramos maior aquecimento, maior poluição, provocada por uma nova horda de automóveis e, o excesso de concreto aprisiona o mormaço.
Este contexto segue ignorado pelo poder público, sempre muito displiscente com as nossas heranças culturais, arquitetônicas, ambientais e sociais, formadores da nossa identidade. Ao aceitar verticalizar áreas da cidade que apresentam singela harmonia entre o ambiente natural e o construído, o poder público colabora com o aumento da segregação socio-espacial, reduzindo as possibilidades de maior coesão social, característica que é relevante nos bairros residenciais unifamiliarres.
Dispomos de uma porção significativa do território urbano passível de verticalização, especialmente nas chamadas "áreas frias" próximas ao centro histórico e aos eixos viários, que deveriam ser ocupados, pois hoje estão em franca depreciação ou sob o domínio de especuladores. Sem políticas públicas para estes locais, geramos uma perda significativa de qualidade de vida urbana. São milhões de metros quadrados de terrenos baldios ou subutilizados, já passíveis de verticalização, que o "não-planejamento" ignora.
Ao adotar o mesmo discurso do segmento imobiliário especulativo, que ameja maiores lucros sem retribuir com qualquer medida compensatória ou mitigadoras para os grande probelmas urbanos, o poder público transparece como agente de um balcão de negócios. O modelo praticado em Joinville, sempre muito afeito a atender com extrema eficácia o poder econômico e especulativo, nos destituí de um modelo de desenvolvimento sadio e durável. Insistem em investir somente na cidade formal, na parte dita “moderna” e oficial (shoppings-centers, infra-estrutura para empreendimentos privados ou edifícios destinados às classes mais abastadas, nas vias para os automóveis, etc.) sendo ineficiente na parte informal, que necessita de postos de saúde, escola, melhoria nas habitações, saneamento, passieos pavimentados para caminhar, arborização para se proteger, transporte eficiente e barato para se deslocar, geração de oportunidades de emprego e renda para se manter, etc.
Cito aqui dois exemplos explícitos: O primeiro quando o Poder Público asfaltou 2 km de vias, que a rigor já estavam pavimentadas, no entorno de um grande supermercado próximo ao cemitério municipal atendendo aos interesses do grande empreendedor e seus clientes enquanto com este mesmo recurso seria possível edificar 45 habitações dignas, um posto de saúde ou uma nova creche. O segundo quando o mesmo poder público acelerou um porcesso de alteração de socemanto para atender um shopping center, sem estudos mais apurados e sem qualquer medida compensatória ou mitigadora.
Estas ações demonstram a inexistência de um planejamento reconhecido e, se suporta num discurso equivocado de que a infra-estrutura disponível (qual infra-estrutura?) é suficiente para justificar a verticalização, ignorando fatores históricos, ambientais ou padrões de ocupação urbana que deveriam pressupor maior coesão social. Seguimos apenas gerando maior segregação (separação) espacial e, a famigerada verticalização dos bairros residenciais, demonstra que não dispomos de controle da dinâmica ocupacional urbana com parâmetros de avaliação reconhecidos sobre a falta de espaços disponíveis à moradia ou aos empreendimentos comerciais. Enfim, nosso modelo de urbanismo é clientelista e enfadonho.
“É impossível esperar que uma sociedade como a nossa, radicalmente desigual e autoritária, baseada em relações de privilégio e arbitrariedade, possa produzir cidades que não tenham essas características”. (MARICATO, 2001, p. 51)



















